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Shaolin Norte

Ao Norte da China, entre cinco cordilheiras, está localizada a província de Henan, fala-se que foi responsável por um grande desenvolvimento das Artes Marciais e Espirituais, como relata a própria Historia.

Alguns escritores ressaltam que as cordilheiras eram tão altas que pareciam guardiãs do céu. Por ser um lugar geograficamente privilegiado e se tratando de um ponto importante nos estratagemas militares, a Província de Henan serviu como berço e moradia para muitos imperadores que se instalaram na cidade de Lo-Yan.
Conta-se que as artes marciais eram privilégio de poucos, atingindo somente os nobres e seus comandantes. Com o passar dos anos, a arte marcial, tornou-se de grande valia, além da defesa, para revoluções, conspirações e também para manter a ordem entre o povo. Segundo a história, um imperador com inclinações religiosas, determinou que fosse construído um Mosteiro de formação Budista. O Mosteiro foi construído próximo à cidade de Lo-Yan, em uma pequena floresta no Monte Song, por volta de 595, recebendo o nome de Mosteiro da pequena floresta (Shaolin Su). Em uma das versões conta-se que o monge Tamo (Bodhidarma), que é considerado o patriarca de Shaolin, ao ensinar seus estudantes notou que os mesmos dormiam durante os estudos devido a sua constituição fraca. Acreditando que um corpo forte não remediaria somente a fraqueza, mas também traria a pessoa mais perto de sua alma, Tamo ensinou 18 exercícios para fortalecer a saúde dos monges. Como passar dos anos a implantação dos exercícios na rotina de vida dos monges propiciou também a prática de exercícios de artes marciais que vieram as raízes das artes marciais de Shaolin.

O Mosteiro ocupava uma região muito grande, sendo completamente auto-suficiente. Só podiam viver nos limites do Mosteiro os monges ou noviços. Cada um desempenhava seu papel para o desenvolvimento do Mosteiro.

Com a evolução das técnicas Marciais, Shaolin alcançou uma posição de destaque, todavia, o Kung-Fu de Shaolin era ensinado somente aos monges e noviços do mosteiro.
Foi Chiu Jin, abade superior, que resolveu abrir as portas do Mosteiro Shaolin e ensinar esta valiosa arte marcial a pessoas que não eram integrantes do Mosteiro. Primeiramente a arte foi ensinada aos guardas das caravanas de comércio entre o Mosteiro e as cidades próximas, com o intuito de proporcionar maior segurança contra bárbaros e ladrões que tentavam saquear estas caravanas. A abertura do ensino a pessoas de fora do Mosteiro deu a oportunidade a pessoas menos privilegiadas a aprender esta arte tão valiosa, ocasionando uma grande revolução na história das artes marciais, tomando-as populares e abrindo caminhos para a formação de grandes lutadores fora dos círculos monásticos.
Desde a chegada dos primeiros missionários budistas à China, os Mosteiros foram agraciados pelo Imperador com autonomia legislativa, econômica, política e militar, o que levou muitas pessoas a buscarem não só santuário atrás de seus muros, mas refúgio também.

O Mosteiro Shaolin não foi uma exceção e durante séculos, pessoas de todas as classes, de civis a militares, de comerciantes a ladrões, buscaram refúgio dentro dos limites do Mosteiro. Estas pessoas trouxeram para o Mosteiro, dentre outras coisas, o seu conhecimento de artes marciais. É importante salientar que o mundo naquele tempo era bem mais violento do que o nosso, o que fazia praticamente indispensável para a sobrevivência o conhecimento de alguma técnica de defesa com ou sem armas.

O Mosteiro Shaolin, desde a chegada de Tamo (Bodhidharma) em 635 dC, possuía, dentro de sua rotina diária, a prática de exercícios para a saúde. Assim, nestes intervalos destinados a pratica de exercícios físicos, os noviços aproveitavam a oportunidade para praticar suas técnicas e estilos de arte marcial. Os monges, através de cuidadosa observação e criteriosa seleção, fizeram uma compilação das melhores técnicas. Inicialmente 72 técnicas foram selecionadas para fazerem parte do treinamento dos monges lutadores. Mais tarde durante a dinastia Yuan (1260 – 1368 dc) este número foi aumentado para 170 técnicas, pelos monges Chueh Yuan (Hung Yun Szu), Li Cheng e Pai Yu-feng, que as agruparam em 5 categorias que refletiam não um estilo de luta, mas a conduta mental do praticante.

  • DRAGÃO: Aqueles exercícios que promoviam a cultivo do espírito uso de força.
  • TIGRE: Os que proporcionavam um corpo mais forte e firme.
  • LEOPARDO: Exercícios que desenvolviam a força física e velocidade.
  • COBRA: Os que cultivavam a força interna (Qi).
  • GARÇA: Os que treinavam o equilíbrio.

É importante salientar que tais categorias não representavam os estilos dos animais que conhecemos hoje, eram um primeiro agrupamento das técnicas, selecionadas pelos monges dentre o grande universo de técnicas existentes. Estas técnicas tornaram-se as bases do Shaolin que treinamos em nossos dias.

Existia um solene simbolismo associado às entradas do mosteiro. Embora houvesse três grupos de portas, frente, lateral e fundo, qualquer pessoa, não importando sua posição, tinha de entrar pelos portões dos fundos, este era um procedimento inalterável. Se um monge não conseguisse cumprir com a disciplina e padrões da vida no mosteiro, ele sairia pela porta dos fundos para nunca mais retornar. Àqueles monges que tinham a habilidade para ter sucesso, mas que escolheram deixar a vida de monge, era permitido o honorável uso da porta lateral. O portão da frente era tão pouco usado que os monges mediam a passagem do tempo pelo seu uso. O portão da frente era reservado exclusivamente para aqueles que tinham, com sucesso, completado o exame para se tomar um mestre da escola Shao Lin. Devido à rigidez do teste poucos conseguiam a aprovação.

Para as pessoas que não conhecem a disciplina desse tipo de vida é difícil é imaginar o tempo e o esforço necessários para o treinamento.

Para ser considerado apto a passar por esta avaliação, o candidato deveria treinar pelo menos vinte anos, geralmente começando seus treinamentos na infância. O teste era uma experiência única, e pelo que sabemos hoje, o candidato não recebia instruções nem dicas do que poderia encontrar.

Durante mais de um milênio, só os monges podiam aprender artes marciais no mosteiro Shao Lin. Somente no final da dinastia Ming (século XVII), o imperador permitiu que o abade superior Chiu Jin ensinasse a Arte Marcial Chinesa do Shao Lin também aos leigos, revolucionando a história do ensino da arte marcial chinesa tradicional e gerando grandes mestres.

O primeiro aluno a se formar com o abade Chiu Jin foi Kan Fon Hsi. O melhor aluno de Kan Fon Hsi foi Man Pon Choy, que ensinou a Yin Ta Kung.

Yin Ta Kung se estabeleceu no negócio de escolta a caravanas e transmitiu a sua arte para seu filho Yin San Son que por sua vez ensinou seu filho Yin Kai Yun. Todos trabalhavam no ramo de escolta a caravanas.

Yin Kai Yun ensinou o Shao Lin Norte para o filho de seu amigo Ku Lei Chi, Ku Yu Cheung que se tornou um dos “Cinco Tigres do Norte” que se estabeleceram em Cantão.

Além do Shao Lin Norte aprendido com Yin Kai Yun, Ku Yu Cheung aprendeu outros estilos de grandes mestres: Tam Tui de seu pai Ku Lei Chi, Pa Kua de Sun Lu Tang, Tai Chi Chuan de Lee Kin Lam, Hsing I de Chin Hsiang Tim. Ku Yu Cheung ficou conhecido como Palma de Ferro, famoso pelo domínio do Chi Kung marcial (técnica respiratória que permite suportar golpes sem danos).

Yang Sheung Mo que aos 35 anos, sendo mestre de Hung Gar, desafiou Ku Yu Cheung para uma luta e perdeu, ficando impressionado com as técnicas de Ku Yu Cheung tornou-se seu aluno, dedicando todo o seu tempo ao aprendizado do Shao Lin Norte. Herdeiro dos estilos do mestre e das técnicas de quebramento, Chi Kun e massagem curativa, foi também aconselhado por Ku Yu Cheung a aprender mais de outros mestres: Choy Li Fut de Tam Sam (um dos Dez Tigres do Sul), Luo Hap e Chi Yin Mun de Mong Lai Sin.

O Grão-Mestre Chan Kowk Way foi aluno direto de Yang Sheung Mo durante vários anos e com ele aprendeu além do Shaolin do Norte outros estilos como o Taijiquan, Baguazhang, Hsingyiquan, Cailifo, Tanglangquan, Lohanquan, Luohap entre outros estilos e suas respectivas armas. Aprendeu ainda o qigong sininho de ouro entre outras técnicas internas e terapias. Grão-Mestre Chan Kowk Way introduziu o estilo Shaolin do Norte no Brasil em 1959.